quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A história que não foi contada


Algum tempo atrás, antes de eu conhecer o meu namorado e antes de eu superar aquele que não virou o meu namorado, eu tinha um amigo. Conheci esse amigo de uma forma inusitada, pelo menos para mim. Eu conheci ele em um aplicativo. Eu estava muito sozinho e isolado naquela cidade e visitava uma vez ou outra esses aplicativos de encontro entre homens, mais como uma forma de distração do que de vontade. De fato, cheguei a conhecer uns dois ou três daquela dezenas de caras com quem conversei. Minha busca era, ao contrário do que a maioria ali, por um papo com alguém interessante e não por corpos ou momentos. Eu sei, estava procurando no pior lugar, mas por algum motivo eu achei. 

Aquele que viria a se tornar meu ex-amigo, tinha esperanças igualmente tolas. Acho que ele peregrinava pelos aplicativos na esperança de alguém que pudesse ser algo mais pra ele. Foi no meio disso que nós nos esbarramos. 

Eu abordei ele por conta de uma frase colocada em seu perfil. Nada demais, só algo que poderia ou não ser promissor. Mas como era um domingo e eu estava fazendo hora pra entrar na sala do cinema mandei uma mensagem qualquer. 

Não lembro do diálogo, mas lembro que muito tempo depois ele chegou a comentar que foi a conversa mais diferente que teve por aquelas bandas. Não cheguei a descobrir o motivo. 

Nossas conversas passaram a ser diárias. Tínhamos muitas coisas em comum. Ele estava sempre bastante arredio e desconfiado, como se tivesse medo de a qualquer momento eu pudesse gritar e dizer "é tudo uma pegadinha!" ou "na verdade eu sou um ator contratado pelos seus amigos". Essas lembranças me fazem rir, mas era exatamente assim que ele agia, meio desconfiado de tudo que eu falava e fazia. 

Quando nos encontramos pela primeira vez, tivemos um longo papo e a conversa fluía tão bem pessoalmente quando pelas mensagens. Nesse encontro eu deixei claro pra ele que entre nós era só amizade, mais do que qualquer coisa pelo simples fato de que eu precisa mais de um amigo do que de sexo. Se eu não tivesse tido nenhum tipo de empatia maior com ele poderia me envolver tranquilamente. Mas a leitura que eu fiz dele foi de alguém que queria romance, só que meu coração ainda estava ocupado. 

Ele era mais jovem que eu, embora não muito. Isso poderia não ter sido relevante se eu já não tivesse um histórico de decepção amorosa que fez meu coração envelhecer um tanto de anos. Isso e meu jeito estranho de pensar, mas isso é papo pra outro dia. O que aconteceu é que ele disse que tudo bem, podemos ser só amigos. E pra mim aquele assunto estava resolvido. 

A amizade continuou por bastante tempo e era incrível como conseguíamos falar de tudo entre nós, principalmente sobre nossos sentimentos. Foi minha primeira amizade naquele lugar e me salvou de enlouquecer em muitos momentos. Só que num momento de fraqueza, principalmente minha, tenho que ser honesto, nossa relação mudou. 

Eu queria sexo, ele também queria, então qual o problema disso? Foi combinado entre a gente que aquilo ainda era amizade. E eu acreditei. Eu sempre fui muito prático e meu erro foi pensar que ele também fosse. 

"Sabe quando você disse pra mim pra eu não me apaixonar por você", ele me disse uma vez. "Pois é, não deu certo". 

Fudeu. Foi a única coisa que consegui pensar. Ainda assim fui cabeça fria a falei com honestidade. "O que eu disse ainda está de pé. Eu ainda não estou 'disponível'. Então temos duas alternativas, ou eu me afasto de você pra você esquecer isso, ou vamos continuar só amigos como antes." 

Agora consigo ver como isso foi egoísta pois era óbvio que ele não iria escolher a primeira opção. Mas eu tentei ser só amigo. Mas ele ainda queria sexo. E eu pensei "eu não posso me responsabilizar pelo que os outros fazem". Quem dera eu tivesse ouvido os conselhos de uma raposa.

O que aconteceu a seguir foi tão rápido que as vezes nem eu mesmo entendo. Eu pensei que estava tudo bem, mas não estava. Avisei pra ele que tinha saído e iria sair com outras pessoas, se perguntando se ele estaria bem com isso, não estava. Me mandou umas mensagens enormes, me fez inúmeras perguntas, depois disse que tudo bem. Mas aí quem já não estava bem era eu. Sua atitude me denunciou o que eu teimava em não ver, que eu estava machucando ele.

Minha solução foi a mais radical, mas ainda assim acho que fiz a coisa certa. Cortei relações com ele. Não foi fácil para mim acabar com uma amizade que eu prezava, e definitivamente não foi fácil pra ele que me acusou de várias coisas e ainda dedicava várias mensagens nos seus status que eu sabia serem para mim. Mas no fim meu plano deu certo (pelo menos eu acho já que não posso perguntar pra ele sem estragar o plano), ele me odiou depois ele me esqueceu e assim está livre pra achar alguém que realmente o quisesse, sem precisar passar por tudo o que eu passei pra esquecer uma pessoa.

Tentar esquecer alguém que vive ao seu redor não é nada fácil, talvez até impossível, eu que sei. Então minha solução foi dura para nós, mas quem disse que fazer o certo é fácil? Com certeza não fui eu.

2 Cochichos atrás da porta:

J. M. disse...

Sam, me identifiquei demais com seu texto. Principalmente por já ter vivido algo assim, mas na história eu era o seu ex-amigo. Conheci meu melhor amigos através de um site, e nossa história de amizade fluiu maravilhosamente bem. Eu, carentésimo, já imaginei uma história de amor entre nós dois. Ele deixou claro desde do início que era só amizade. Mantive a amizade na esperança de que isso mudasse um dia. Ledo engano: não mudou. Enfim, altos e baixos foram muitos nesta amizade, mas hoje continuamos amigos. Um pouco mais distantes pelo fato de morarmos em cidades, estados diferentes. Mas, ele ainda é e sempre será o meu melhor amigo. Aquele que melhor me conhecer. Minha eterna paixão, como homem mesmo. Mas ainda assim, acho que não conseguiria me envolver com ele de forma romântica hoje em dia. Abraço

Homem, Homossexual e Pai disse...

Sam, seus textos sempre são muito bem escritos, parabens! e olha a coincidencia, eu tb vivi um momento em que o combinado era "não se apaixonar" e "o outro" não seguiu o combinado, não foi identico mas foi parecido

http://paigay.blogspot.com.br/2013/09/22-27-49.html

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