quarta-feira, 1 de junho de 2016

Minha Coragem


Caro Sam,
Medo????
O que acabei de ler parece o texto de um homem muito, mas MUITO corajoso!!!!
Quem descreve tão perfeitamente o medo que existe dentro de si só pode estar plenamente consciente.
Acredite....Poucas pessoas sabem da existência do medo e se atrevem a enfrentá-lo como você acabou de fazer nesse post (e na vida).
Você está absolutamente correto quando afirma que o medo foi o seu mecanismo de defesa. Defesa para sobreviver crescendo um ambiente familiar infelizmente muito tóxico. Não havia outra opção, mas quem sabe descrever o medo como você fez dificilmente vai sucumbir a ele.
Você tem a minha mais sincera admiração pela sua CORAGEM!!!!!

Não é sem motivo que eu quis começar o texto com esse comentário do meu último post, Meu Medo. Recebi comentários muito carinhosos e resolvi que pra responder a todos de forma mais completa eu precisava escrever um outro texto. Só que de todos os comentários o que ficou mais martelando na minha cabeça foi justamente esse aí de cima, do José Soares. 

Meu Medo é, para mim, mais do que um simples texto relatando acontecimentos na minha vida. Ele representa um marco e de tão forte e intenso precisei de muito tempo para esculpi-lo. Não escrevi em uma única noite, ao contrário, esse texto estava madurando dentro de mim já há alguns meses, quem sabe anos. Apenar disso não tenho a pretensão de que ele se destaque por qualquer outro motivo que não seja apenas o de transpor a verdade, ou melhor, a minha verdade. 

Aqui cabe uma história. Escrever sempre me ajudou muito mais do que falar e para mim também é muito mais fácil. Foi em um texto que tive a primeira vez a coragem de dizer "eu sou gay". Foi assim a primeira vez que admiti estar apaixonado e disse "eu te amo". E esse Quarto Fechado está por trás de tudo isso, pois na minha gaveta ou num arquivo no computador os textos estão mortos, mas é aqui, expostos que eles ganham vida e com os comentários eu posso ir ainda mais fundo nos meus próprios pensamentos. 

Esse texto, Meu Medo, não foi diferente. A única diferença é que ele foi ainda mais demorado de elaborar simplesmente pelo fato de eu ter muito medo de admitir o meu medo. Foi preciso um tempo enorme apenas para conseguir o desprendimento necessário para falar sobre um assunto sem hesitar em nada. Sem medo, sem culpa. 

Quando me sentei para escrever certa noite, sem saber muito bem como começar, terminar ou mesmo sobre o que escrever ou como explicar os pensamentos que passavam em profusão, as palavras simplesmente saíram, sem compromisso. Ao terminar me senti vazio. Era como se tivesse esvaziado o balão que há tempos enchia e já estava ponto para estourar. 

Precisei de mais alguns meses para poder voltar ao texto. Dar a distância necessária para olha-lo de uma forma mais imparcial. E só depois de organizar tudo de uma forma mais lógica pude publicá-lo. 

Foi um processo demorado, mas o fato de eu conseguir escreve-lo, para mim já mostra o como eu consegui ser mais forte do que aquilo tudo. Foi um processo longo e doloroso de, como disse o José, consciência do medo e depois enfrenta-lo. Não vou dizer que foi fácil, ou melhor, que está sendo. Ao contrário, cada vitória ou derrota tem um preço alto. Mas é um preço que eu estou disposto a pagar. 


Outro dia cheguei a conversar sobre o assunto com amigos daquela época, os tais que me abandonaram por eu parecer "gay demais". Alguns acabaram virando amigos de hoje e, surpresa, também eram gays. Não os culpo por terem feito aquilo comigo, já que a pressão na época não era nem um pouco fácil de lidar. A sociedade da qual viemos ainda hoje exclui os gays do convício social normal. Para meu próprio bem, assim que pude fugi de tudo isso, fui pra bem longe.

Ainda gosto de andar "invisível" e acho pode ser ainda resquício do que vivi, mas pode ser que isso também venha do fato de eu ser muito observador e um observador tem que ser invisível. Meus gostos pessoais, também passam longe de coisas extravagantes (ou coisas que são normalmente associadas a comunidade gay), mas isso não me incomoda mais. Assim tento buscar o equilíbrio. No mais estou namorando um cara que não é nem de longe o modelo de heteronormatividade, então essa parte eu acho que tô bem comigo mesmo. 

Acho que preciso também falar um pouco mais do meu irmão. Pelo que percebi o texto chamou atenção da maioria das pessoas pela parte em que falo do meu irmão. Tanto que ele até gerou um texto bem legal do Homem, Homossexual e Pai, mostrando um tipo diferente de irmão. Não tenho muito a dizer sobre ele pois simplesmente é uma pessoa que hoje não exerce mais nenhuma influência da minha vida. 

Seus abusos acabaram conforme eu crescia, mas nem por isso deixaram de me afetar por um longo tempo. Tenho sérias suspeitas, não infundadas, que ele tem o perfil psicológico do que chamam de "psicopata", além de "mitomania" e "síndrome de Peter Pan".  E como falei em um comentário, faz mais mal a ele mesmo do que aos outros. Só conversamos o necessário. Acho que no último ano devemos ter trocado mais do que duas duzias de frases, apenas o inevitável. Ainda assim não carrego ódio por ele. Apensar da mágoa que carrego, prefiro cultivar a indiferença para que ele não me faça ainda mais mal, o que é fácil já que atualmente moro bem longe dele. 

Aos que passam ou passaram por momentos parecidos, desejo força e até meu ombro pra desabafar e trocarmos ideias. Sou uma pessoa que adora conversar e não tenho nenhum medo dos meus leitores, ao contrário. Os que me ofereceram palavras de carinho, seja nos comentários ou por e-mail, agradeço mais uma vez. Vocês são incríveis e é por isso que gosto de compartilhar minhas histórias e continuo fazendo isso, mesmo que não seja de forma tão frequente. 

E que todo dia a coragem vença o medo. 

3 Cochichos atrás da porta:

Jose Soares disse...

Caro Sam,
Fico feliz que o comentário o fez pensar.
É preciso muita coragem para ter consciência do medo.A grande maioria de nós se afasta dele por ser doloroso demais. E realmente é. Mas é preferível conversar com o medo do que ser dominado por ele.
Volto a dizer....Você tem a minha mais completa admiração por sua coragem!
bjs

Latinha disse...

"E de repente, num dia qualquer, acordamos e percebemos que já podemos lidar com aquilo que julgávamos maior que nós mesmos. Não foram os abismos que diminuíram, mas nós que crescemos..." (Fabiola Simões).

Abração.

Henrique disse...

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