terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Meu Medo

homem jovem pelado olhando pela janela de vidro da casa

Não sei bem ao certo o motivo, mas de uns tempos para cá me vem constantemente à cabeça lembranças da minha infância, uma época da minha vida que eu gosto de manter longe da mente. 

Na época, eu lembro nitidamente, eu costumava pensar que minha vida era até boa e vivia de forma confortável e com poucos, mas bons amigos. Mas quando a gente olha de longe a gente enxerga melhor certas coisas e passados muitos anos eu tenho uma nova perspectiva sobre a minha infância. 

Carrego tantos traumas dessa época que a maioria nem sequer sei explicar, e muitos ainda estou descobrindo e entendendo. 

A coisa que mais me choca é como eu era uma criança medrosa. Não o tipo de medo que se espera crianças tenha, como medo do escuro e medo de fantasmas. Esses eu logo perdi. Mas eu tinha um enorme medo de pessoas. 

Eu me apavorava de sair da minha zona de conforto e aprendi desde cedo que as pessoas vão, invariavelmente, te decepcionar, te deixar triste e te machucar, física ou emocionalmente em algum momento. 

Minha própria casa era por vezes meu inferno. Sempre muito frequentada, eu via pessoas indo e vindo, algumas vezes demorando um pouco mais. Eu via meu pai tratar os filhos de estranhos melhor do que tratava a mim. Eu via minha mãe esboçar o sorriso que eu sabia ser forçado e ser educada com pessoas que eu queria que fossem embora. Eu me sentia vigiado e invadido. Constantemente eu tinha de ceder meu lugar e minhas coisas para pessoas que eu sequer conseguia gravar o nome, e as odiava por isso. 

Mas principalmente, na minha casa eu tinha muito medo do meu irmão mais velho. 

Ele era meu algoz. O juiz e o carrasco de todas as sentenças. Minha simples existência era motivo de incomodo para ele e por isso eu andava pelas sombras da casa evitando chamar a atenção dele pra minha presença pra não sofrer as consequências por... existir.

Ele constantemente me acusava de algo que eu nem sequer entendia. Para ele eu era muito mulherzinha. Minha voz era muito fina, meu jeito era vergonhoso e eu precisava virar homem. 

Tudo que eu fazia parecia o irritar profundamente. Agressões físicas não eram raras, mas logo eu aprendi a escapar antes mesmo que ele pudesse pensar em fazer qualquer coisa, já que enfrentar alguém com força e tamanho superior não era uma opção. Ser humilhado e xingado na frente dos amigos dele era uma constante, e eles se viam no direito de entrar na “brincadeira”. Embora alguns não participassem, o olhar de dó que me ofereciam parecia ser pior que qualquer palavra que pudessem dizer. 

jovem adolescente com o nariz sangrando e escorrendo pela boca melando o dente

Não longe da minha casa tinha a escola, para mim uma obrigação inútil e sem sentido. Eu entrava na sala de aula, os professores passam em procissão a minha frente, entrando e saindo entre uma aula e outra. Meu olhar se acostumava a segui-los para evitar ser chamado atenção por não estar prestando atenção, mas minha mente estava presa dentro de se mesma, incapaz de ouvir o que diziam. Passei vários anos da minha vida escolar estudando apenas como autodidata com ajuda dos livros didáticos em casa. Ir na escola era apenas um ato de coação. E o recreio era só a pausa dessa monotonia para que eu pudesse comer uma comida ruim, sentado sozinho em algum canto onde as crianças não pudessem me ver nem eu a elas. 

Minha solidão escolar era justificada, ninguém queria ser meu amigo. Eu era o viadinho da escola antes mesmo de saber o que significava ser viado. Ninguém queria ser visto comigo, embora todos meus irmãos fossem muito populares e minha família tivesse mais dinheiro que todas as outras ali, nem isso fez com que eu pudesse ser incluído. Conhecido sim, mas não incluído. 

Alguns amigos e amigas vieram depois, bem depois. E eles também chegaram para reforçar o que eu já aprendia: pessoas vão te magoar. Alguns amigos se aproximavam e tinhamos bons momentos enquanto eu me iludia com aquela alegria passageira. Mas logo alguém os alertava “você vai andar com esse viadinho!?” e eles se afastavam. 

Sair ainda mais longe desses lugares que eu já me acostumara era inda mais amedrontador. Hoje muitas pessoas que não me conhecem bem julgam que eu seja tímido, mas não sou assim. Acontece que em diversas ocasiões sociais eu pude aprender que o melhor que eu faço é ficar calado no meu canto evitando olhar nos olhos das pessoas e tentando não atrair nenhum olhar para mim. Caso me esquecesse disso, ao chegar em casa sempre havia meu irmão para me lembrar como eu devia me comportar e não ficar agindo igual “baitola”. As lições dele eram difíceis de esquecer. 

Os comentários que eu pescava aqui e ali também me magoavam bastante. Um sinal mal disfarçado entre colegas, cochichos mal abafados e palavras jogadas na cara. Certa vez uma criança menor me revelou que chegou a achar que eu era uma menina disfarçada de menino. Fiquei sem resposta na hora. Até hoje não tenho essa resposta. 

Embora eu não soubesse exatamente o que mudar, eu tentei. Tentei aprender a evitar certas palavras, observei como “homens de verdade” caminham e tentei imitar, o jeito de sentar e até o corte de cabelo. 

Se eu deixei um dia de ser afeminado? Não tenho tal esperança. 

Hoje eu sei conscientemente, e concordo com isso, que não é nenhum demérito ser afeminado. Mas é difícil se convencer de agir de acordo com esse princípio se você passou a infância, mais que isso, a vida, sendo ensinado do contrário através de duras lições. 

Até hoje eu me pego sentindo vergonha quando uma nota da voz sai mais aguda do que eu gostaria. Percebo que não compro nenhuma roupa ou calçado que eu acho que me associa ao meio gay. São coisas que vêm diminuindo aos poucos em um ritmo lento, mas ainda me incomodam quando eu paro para pensar mais profundamente. 

Acontece que eu ainda tenho um nada pequeno resquício de medo. Eu ainda tenho medo de gente. 

11 Cochichos atrás da porta:

Homem, Homossexual e Pai disse...

Sam... amigo da blogsosfera, seu texto me impactou muito! Muito! Eu sou o irmão mais velho da minha casa e minha atitude foi sempre completamente diferente com meus irmaos... cara, seu irmão não entende nada do que é ter em casa um irmao! Raiva master dele!
Fiquei muto triste em saber que sua infancia e juventude foi tão dificil, e que seus irmãos nada fizeram para te ajudar! Pelo que vc diz, hoje em dia as coisa estão melhores, mas mesmo assim vc ainda guarda muito do que vivenciou no seu passado, e ainda tem muito medo das pessoas!
Não vou dizer que não tem alguma razão, tb encontrei muita gente "tranqueira" , mas tb encontrei muita gente legal mundo afora! Espero que tb tenha encontrado algumas... tem uns blogueiros, como o Bratz, o Zé Soares, o Edu, e outros que valem grandes papos...
Vc já contou em outro texto que é timido, agora dá par entender um pouco melhor... não é exatamente timidez não é?
Um grande abraço meu amigo!

Sam Peregrine disse...

HHP, obrigado pelas palavras.
Sim, já superei muito dessas coisas. Embora eu ainda seja afetado por tudo isso, pois não posso apagar o passado, eu resolvi viver no hoje.
Também encontrei algumas pessoas maravilhosas nessas andanças por blogs, e vou ficar mais atento aos que você citou. Sobre o medo de pessoas são coisas que vem diminuindo e escrevi o texto como uma forma de exorcizar o que ainda sobra dele e me incomoda.
Acho que minha falsa timidez é na verdade um mecanismo de defesa contra pessoas desconhecidas, que eu ainda não confio.
Quanto ao meu irmão ele faz mal a se mesmo que aos outros, e de mim não merece nem meu ódio.
Abração pra você também!

Latinha disse...

Nossa...

Vontade enorme de ter dar um abraço bem apertado (daqueles de estalar as costelas) de irmão mais velho! Olha como é a vida né, eu sou "o irmão mais velho" aqui de casa, mas só tive irmãs... Apesar de adorá-las e de na grande maioria das vezes nos darmos bem, confesso que lá no fundinho queria muito ter um irmão mais novo... Alguém que pudesse andar comigo, conversar, brincar...

Estou com o HHP, vontade de dar um "presta atenção" no teu irmão, perdeu a chance de conviver com alguém muito legal e especial... De qualquer forma, acho que para muito de nós, as coisas que você relata sempre são medos enormes...

Somos mestres em nos esconder, em disfarçar, em passar sem chamar a atenção... Mas entendo que aos poucos vamos vencendo isso e espero que possa vencer isso o mais breve possível, penso que se já é capaz de escrever sobre isso, já é um sinal de que muitas coisas já ficaram para trás... Apenas não hesite em pedir ajuda se precisar.

E saiba que tenho muito orgulho de poder chamá-lo de amigo! :)

Homem, Homossexual e Pai disse...

Perfeito seu coment LATINHA, Sam, estou escrevendo um post sobre o irmão mais velho de todos nós, depois dá uma passada para ler...

Romano Feed disse...

Nossa que profundo...
Acabei de cair no blog de paraquedas e bummm...
Esse tipo de gente que só nos faz mal não merece nem a nossa raiva, não são dignos disso,bola pra frente e a partir de hoje me tornei mais um seguidor deste "quarto fechado"...

Jose Soares disse...

Caro Sam,

Medo????
O que acabei de ler parece o texto de um homem muito, mas MUITO corajoso!!!!
Quem descreve tão perfeitamente o medo que existe dentro de si só pode estar plenamente consciente.
Acredite....Poucas pessoas sabem da existência do medo e se atrevem a enfrentá-lo como você acabou de fazer nesse post (e na vida).
Você está absolutamente correto quando afirma que o medo foi o seu mecanismo de defesa. Defesa para sobreviver crescendo um ambiente familiar infelizmente muito tóxico. Não havia outra opção, mas quem sabe descrever o medo como você fez dificilmente vai sucumbir a ele.
Você tem a minha mais sincera admiração pela sua CORAGEM!!!!!

Eolo disse...

Acho que conseguiu o truque, confronta o seu medo nos olhos e depois diz que ele tem que ir embora. Um abraço forte de alguém cujo irmão embora esteja longe de ser uma pessoa modelo não passei o mesmo que você.

Anônimo disse...

Boa noite,

Lendo seu texto me vi inserido nele. Poderia ser eu escrevendo, nossa história é "exatamente igual". O título traduz tudo, MEDO. Não é timidez e sim algo que nos foi inserido e convivemos com isto dentro de nós, praticamente desde nascidos.

Aprendi, e acredito você também, a conviver com este medo e hoje praticamente não me atrapalha tanto quanto antes, mas continua lá, o tempo todo. Não é medo de ser gay, é medo de ser alguém, qualquer alguém, pois qualquer tentativa foi inibida por pessoas dentro de nossas próprias casas. Hoje eu sou a pessoa que mais me controla, acho que 99% do tempo "estou em alerta".

Sinto que poderia estar melhor, mas estou satisfeito de estar onde estou, tendo caminhado sozinho por quase toda a vida.

Marcelo Dantas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcelo Dantas disse...

Nossa, tava com saudades de lê seus textos, melhor dizendo tuas experiências Sam. Esse em especial, me identifiquei com alguns trechos, tirando a parte do irmao. De fato, "medo" não resume essse passagem.
Abraçao!!!

Marcelo Dantas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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