sábado, 19 de dezembro de 2015

Diálogos


Muito tempo depois...

Sentando na mesa, olhando ao longe pra TV que mostra o show de uma banda que eu não gosto, permaneço calado depois de fazer meu pedido. A minha frente o destinatário de cartas jamais entregues. Depois de trocar as palavras habituais, contar as novidades mais imediatas e práticas ele toca no assunto que eu desejava que tivesse esquecido, embora soubesse que isso não ia acontecer.

- Você está namorando? 

Nós dois sabíamos que aquilo não era uma pergunta. 

- Que curiosidade! – tento brincar, mas o tom sai mais irritado do que eu gostaria. 

- Só quero saber da vida do meu amigo, não posso? 

Silêncio. 

- Olha, eu sei que você está chateado comigo – ele começa. – Eu sei que o que eu fiz não foi certo e eu quero te pedir desculpas. Mas isso não é motivo para você me tratar assim, se afastar de mim. Eu só queria que você voltasse a confiar em mim...

- Depois do que você fez, você sinceramente acha que eu devo confiar em você? – falo friamente.

- Claro que sim!

Silêncio. 

- Você me magoa falando desse jeito comigo – ele fala, meio áspero. 

- Você me magoou muito também – disparo. – O que você fez foi só a gota d’água. Eu venho engolindo as suas burradas há muito tempo e cansei. Me afastei de você para não falar tudo que estava engasgado, pois ia ser pior. Achei melhor o tempo dar o jeito dele. 

- Você está sendo infantil agindo desse jeito, sendo muito radical. Não leve as coisas tão a sério. 

- Ao contrário, de nós dois o infantil aqui é você. Eu estou dando a cada coisa o seu devido tamanho e importância. Ao contrário de você que age como se nada do que fizesse e falasse tivesse consequências. 

Silêncio. 

- Eu já te pedi perdão. 

- Fico agradecido, mas você não precisa pedir perdão. Eu já esqueci essa história há muito tempo, e queria que fizesse o mesmo. Eu só segui em frente, não sinto mais raiva de você. 

- Todo esse tempo eu amadureci bastante, mudei bastante – ele disse, mas não foi o que senti. – Queria muito que fossemos amigos como antes. 

- Também cresci muito nesse pouco tempo. Repensei muita coisa, reavaliei o que era importante para mim – e ele ficou de fora dessa lista, mas preferi não dizer isso. – Não vai ser agora, mas quem sabe nossa amizade possa voltar ao que era antes. 

Silêncio. 

- Sim, eu estou namorando. 

- Como ele é? 

- Uma pessoa especial. 

- Como se conheceram? 

- Do jeito que as pessoas se conhecem. 

- Já faz muito tempo? 

- Estamos namorando há três meses.

- Então você não é mais virgem.

Nessa hora não consegui segurar a gargalhada. Ri tão alto que as pessoas ao redor devem ter me olhado, mas eu não liguei. Continuei rindo mais um pouco. 

- Estou saindo com alguém também – eu já sabia, ele faz questão de mostrar a todos que já superou o ex.

Francamente, eu tinha medo daquele dia. Embora eu torcesse sinceramente para o contrário, eu sabia que o casamente não ia durar muito tempo. Ele era incapaz de se manter muito tempo em um relacionamento. E eu temia que quando esse dia chegasse eu fraquejasse e caísse novamente no poço que eu tive tanto trabalho de sair. 

Ele fala um pouco do novo romance e do antigo relacionamento. Fico calado pensando. Olho para ele de verdade pela primeira vez desde que sentei à mesa. Sinto pena. Sinceramente sinto muita pena dele. Ele está tão perdido e nem sabe. Me conformo com meu eterno papel de amigo conselheiro, obrigado a falar o que os outros não ousam e sofrer as consequências. 

Algumas coisas nunca mudam. 

A comida chega. Suspiro, enquanto como minha comida pensando no meu namorado. Em como ele ia gostar de provar aquilo, nas coisas que eu ia querer mostrar para ele se ele estivesse ali e principalmente em como a noite teria sido perfeita se fosse ele que estivesse ao meu lado. Sorri ao pensar que meu medo era infundado. 

Algumas coisas mudam radicalmente. 

5 Cochichos atrás da porta:

Latinha disse...

Interessante que "as desculpas" dele supostamente apagam automaticamente tudo o que ele tenha feito e você acaba sendo "o infantil", né?!

De verdade, nessas horas eu paro e agradeço aos seus por não darem tudo o que peço! Momentos como esse mostram como podemos nos enganar muito a respeito das coisas, muito provavelmente na época você sofreu e o queria tanto que não seria capaz de ver as coisas que hoje vê e mais que isso, permitem que isso apenas não te afetem! :)

Muito inspirador ler teu texto! Abração

Sam Peregrine disse...

Latinha você pegou completamente o espirito da coisa.
A minha visão de mundo mudou completamente desde quando eu me afastei dele mas a dele parece que não, inclusive esse foi o tema de uma troca de mensagens mais tarde na mesma noite.
Obrigado pelo comentário :)

Homem, Homossexual e Pai disse...

seus textos, suas historias, suas confisoes, seus pensamentos... tudo é muito interessante! grande abraço!

Sam Peregrine disse...

HHP, obrigado!
Abraço!

Marcelo Dantas disse...

Verdade, tudo é muito interessante.

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