terça-feira, 28 de outubro de 2014

Prazer conhecer você


Oi, meu nome é Sam, tenho 22 anos e não sou nenhum santo. 

Não sei porque estou falando isso, a essa altura do campeonato. Por algum motivo eu senti que essa era a forma certa de começar esse texto. Só mais um na coleção desse blog. Mesmo assim, eu sinto algo diferente, algo que vem surgindo há algum tempo, e que ainda está em curso. Me apresentar novamente me pareceu a forma certa de apresentar isso aqui no blog. 

E retomar coisas relevantes do passado, que ainda afetam o presente. 

Por algum motivo, me veem agora algumas lembranças. Lembranças antigas, já há muito deixadas de lado, meio adormecidas. Lembranças da minha infância. 

Eu não tive uma infância difícil ou traumatizante. Mas eu estaria mentindo se dissesse que tive uma infância feliz, de todo. Na época, me lembro, as coisas pareciam estranhamente normais. A infelicidade era o correto. E a alegria pequenos momentos roubados, que pareciam deixar no lugar só um sentimento de culpa, como se tivesse feito algo de errado. Eu sabia que não poderia ser feliz, não merecia. Era o que eu sabia, sem ninguém me contar. Talvez em outro tempo, em outro lugar. Mas não ali, onde eu estava. Ali era lugar só de sobreviver, o melhor que conseguisse. 

Minhas memórias são um quebra-cabeças faltando peças. A coisa que me lembro com mais força é a solidão. Eu estava constantemente sozinho, mesmo quando estava no meio de uma sala de aula cheia, ou entre meus pais e irmãos vendo TV, ou em uma reunião familiar. Só solidão. 

Não conto essas coisas para sintam pena de mim. Pena é um sentimento que detesto profundamente. São coisas que eu escrevo porque preciso. Eu preciso escrever para organizar meus pensamentos, por ordem no caos da minha mente, e quem sabe tirar uma conclusão disso. 

A segunda coisa que me vem a mente é o frio. 

A solidão ou te mata ou te deixa mais forte, é o que eu acho. Talvez forte até de mais. Foi o que ela fez comigo. Construiu um enorme castelo de gelo ao meu redor. Muros altos, paredes grossas, janelas pequenas. E é nesse castelo que eu tenho vivido. Quem me conhece sabe muito bem do que eu estou falando. O grande frio e distante Sam. 

Mas por dentro eu morria. 

Enquanto eu apodrecia por dentro, alguns poucos tentaram invadir o castelo. Tolos, é o que eu digo. Não valho o esforço. Mas tanto forçaram que abriram rachaduras e chegaram a derreter um pouco de todo esse gelo. 

E eu estou lá dentro, no quarto, com a porta fechada. 

É assim que eu penso, quando penso em todos que de mim se aproximaram. É uma metáfora bonita, mas não menos cruel. 

Não sou, na verdade, tão inatingível assim e estou mesmo tentando mudar. Só que eu tenho claro o meu punhado de defeitos. Meus problemas em conseguir falar o que eu sinto, minha dificuldade em me aproximar de pessoas estranhas, minha demora em conseguir ter intimidade, minhas fases. Eu tenho a minha bagagem, e por mais que eu me mude, não dá pra deixar tudo pra trás. 

Quem vai abrir a porta desse quarto?

Não posso esperar que ninguém faça isso. De certo só eu posso abri-la. Abrir e convidar alguém pra entrar. Quem sabe tomar um suco e ver minha coleção de livros. Sentar na beirada da cama e conversar besteira. É assim que eu imagino. 

Talvez mais alguém vá bater na porta. Mas enquanto isso, a porta ainda está fechada. 

13 Cochichos atrás da porta:

Marcos Campos disse...

Hey Sam !
Acho que me vi um pouco em seu relato, principalmente na criança solitária, mas acho kque todo mundo é um pouco disso, talvez ... ou somos parecidos, ou somos mais normais do que achamos, talvez mais a segunda opção.
Parece que são assim que as coisas acontecem, mas pelo jeito, está tudo indo num caminho legal, espero !

Abraço !

Homem, Homossexual e Pai disse...

Lindo texto, preciso ate dizer que me vi em algumas passagens, mas meu castelo era feito de um sólido concreto desempenado...muito bonito e com paredes curvas que davam a sensação de amplidão.!
parabens pelo texto! espero que as coisas melhorem mais ainda! abraços

Lobo disse...

Castelo de gelo....

Gosto dessa metáfora.

Meus amigos me chamam de coração gelado. Ou destruidor de corações. Frio.

Eu gosto do frio. O frio dessensibiliza. Isola. Quando era criança me lembro bem de me expor a situações completamente desnecessárias para me tornar mais forte, de tanto que me pisavam. Frio. Dor. O isolamento fortalece. A dor disciplina. Sangue. As barreiras passam segurança. Não precisa baixar guarda. Não amoleça. Não é necessário. As vezes um ou outro aparece dentro do castelo do nada. Não fazemos a menor ideia de como entraram, mas já que está lá dentro, porque não aproveitar o momento? Quando a paciência acabar, é só colocar pra fora e tá tudo certo.

FOXX disse...

que pena que vc está neste castelo de gelo, não acho saudável, mas eu entendo o porquê de vc ter se colocado neste lugar. É difícil mesmo. Outra coisa que eu queria comentar, é como as pessoas não entendem que desabafar não é um ato para que sintam pena de vc, muito pelo contrário, é uma grande demonstração de força porque vc consegue ver os problemas e falar/pensar sobre eles apesar deles existirem dentro de vc. Torço para que vc consiga um dia abrir a porta do castelo. Espero que ainda seja possível.

Anônimo disse...

Houve uma época que eu era muito chamado de coração de "pedra". Acho que utilizar a pedra é ainda mais complicado que o gelo... O gelo ao menos tem a chance de derreter.
Ainda assim, resolvi quebrar esta pedra. Em alguns momentos que me sinto muito triste, sinto falta daquele sentimento. Era um sentimento de segurança. Eu sentia que tinha de me manter forte.
Mas, ao mesmo tempo que aquilo me fazia bem, pois evitava que eu sentisse a tristeza, me fazia mal... Era como se eu não sentisse nada. Da mesma maneira que eu não sentia a tristeza, não sentia a felicidade. Da mdsma maneira que eu não sentia o ódio, não sentia o amor.
Então, pelo seu bem, espero que seu castelo de gelo derreta e que a sua porta se abra. Mesmo que venham sentimentos ruins, os bons são capazes de superá-los.

Latinha disse...

Pois é, acho que todos passamos por essas fases... eu também, foi assim que nasceu o Latinha, o Homem de Lata que procura um coração! Não sei, difícil falar algo, isso merecia um bom papo, de preferência com algum café...

O que posso te dizer é que tudo tem um tempo, que não é o nosso tempo e que só é teu, eu também já me fechei em uma fortaleza, coloquei defesas, muros altos, trancas... Mas um belo dia, quando eu menos esperava alguém foi lá e desarmou tudo e mais do que estar só, eu descobri que não sabia me portar no meio das pessoas... foi um aprendizado meio complicado.

Ainda não sei tudo, mas talvez, só de vê-lo escrever sobre isso, seja sinal de que você já começou a fazer o que devia... se preparar quando você, ou alguém, alguém abrir essa porta, você possa aproveitar!

Você é novo, há muito por vir ainda! Não há garantias de que tudo será diferente, mas vale a tentativa! fico na torcida por ti, e quando quiser papear um pouco, pode contar comigo!

Abração.

driftin' disse...

«Só que eu tenho claro o meu punhado de defeitos. Meus problemas em conseguir falar o que eu sinto, minha dificuldade em me aproximar de pessoas estranhas...»

...

A solidão é um lugar complicado. Estar só e, ao mesmo tempo, soltar um grito de quase angústia, esperando ser escutado por alguém que passe perto. Talvez por alguém que ainda não existe.

Por outro lado, a solidão - vá lá saber-se porquê!... - é frequentemente confundida com arrogância. Uma espécie de elitismo que se alarga pelas próprias paredes e que, por paradoxal que possa parecer, "obriga" a manter fechada essa porta imaginária que separa os sonhos do vazio.

Não deixa de ser um problema. Uma equação com várias incógnitas que, se calhar, se resolve de uma forma estranhamente fácil. Às vezes basta um sorriso. Será que no mundo ainda existe alguém capaz de sorrir?

Antonio de Castro disse...

foi interessante para mim chegar já lendo esse texto, me senti privilegiado. obrigado por se apresentar de novo para alguns porque para mim foi pela primeira vez.

sobre a solidão, o frio e o isolamento... pelos comentários aqui em cima, você deve ter visto que não está sozinho.

preciso dizer que o parágrafo "Não sou, na verdade, tão inatingível assim e estou mesmo tentando mudar. Só que eu tenho claro o meu punhado de defeitos. Meus problemas em conseguir falar o que eu sinto, minha dificuldade em me aproxim..." foi um soco no estômago.

é preciso muito coragem para falar de si com essa lucidez.

J. M. disse...

Pelo visto, você não estar tão só, querido Sam. Viu, vários comentários. Gente que acompanha sua solidão. E acredito que em determinado momento, você irá abrir a porta para um visitante inesperado que irá tomar muito mais espaço do que você imagina...Forte abraço e volte mais vezes ao meu mundo.

J. M. disse...

Ah, obrigado pela visita. E pelo comentário lá no Blog. Quem sabe dessa solidão sua, minha e de tantos outros que nos leem não nascem novas amizades? A solidão incomoda às vezes. Mas por outras é tão necessário também...Enfim...Abraço.

M. Horn disse...

A Imag...

Dentro da Bolha disse...

me identifico, definitivamente. se eu melhor for esse, que alguém consiga atravessar essas paredes e move-las do melhor modo possível.
abraço intenso!

dentrodabolh.blogspot.com

Fred disse...

Os que não são santos são os melhores, caro Samzete!!!
O prazer foi todo nosso ler esse teu intenso relato, tenha certeza!!!
E claro que tu sabes que algumas "portas" só podem ser abertas por nós mesmos, nzé?
Ótimo fds pra ti, meu guri!

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