quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Delírios


Não sei dizer se a noite está fria ou quente. Mas eu sinto frio. Estou com febre.

Se bem que pode ser nada, afinal meu corpo é sempre quente. Quente por fora. Por dentro o frio me congela. 

Mas minha dor de garganta e minha tosse não negam, estou definitivamente doente. 

Não gosto de ficar doente principalmente por um motivo: tempo. Quando estamos na cama doentes, sem ter forças pra fazer qualquer coisa, sobra muito tempo pra pensar. Pensar e pensar e pensar. E sentir. 

Solidão. Fragilidade. Vulnerabilidade. 

Solidão. 

Eu sino frio. Mas sinto principalmente a ausência de algo que eu nunca tive. 

Eu busco coisas, formas de preencher esse vazio. 

Eu vejo um filme, sempre tenho que voltar as cenas, pois não estou muito concentrado. 

Leio um livro, mas constantemente paro pra pensar. As páginas parecem não virar. 

Ando pelos cômodos da casa, sem lembrar o motivo de ter ido até lá. 

Eu deito, eu sento. Não há posição que me conforte. 

Faço coisas fúteis. Passeio pela internet, dou atenção a pessoas que não tem meu interesse. Eu estou em desespero, mas custo a perceber. 

Só quando a ficha cai que eu busco as palavras. A caneta minha arma, o papel minha vítima. 

Só quando nada mais me consola, eu sou meu próprio consolo. Quando o tempo parece se arrastar, eu paro e espero ele passar. Quando eu estou em desespero, só me resta eu mesmo. Não é o suficiente, mas tenho que me conformar. 

Eu tenho febre. Será que estou delirando?

Eu costumava ver aranhas em suas teias, carros de corrida e coisas flutuantes. Esses eram meus delírios febris. Hoje não vejo nada. Tudo perfeitamente normal. Estou sozinho. Lúcido. Mas queria meus delírios de volta. 

Eles dizem pra que eu construa minha própria felicidade e futuro, para não depender de mais ninguém. Mas às vezes é tão pesado esse fardo. É tão difícil carrega-lo sozinho. Todo esse tempo, não tive um dia de descanso. 

Colocando pedra sobre pedra indefinidamente em meio a enxurradas e tempestades. Sempre lá pra seguir com o trabalho. Mas quando terei uma trégua? Quando meu lar estará pronto? 

Não quero mais visitas passageiras, quero alguém pra morar sob esse teto que eu construo. Cheio de furos e vazamentos, quem sabe possa me ajudar a concertar. Cuidar de mim quando estiver doente. E que eu também possa cuidar. 

Os delírios voltaram. Agora são castelos. Eu fecho os olhos pois não suporto a visão. 

Espero mais uma vez o sono do esquecimento. 

5 Cochichos atrás da porta:

Marcos Campos disse...

Mas o que é a vida senão essa constante mudança entre o real e o delírio ? Eu vivo transitando entre esses dois mundos, desde sempre ! Um, faz parte do outro, e de nós !

Abraço !

Beatriz disse...

Delirar já virou algo rotineiro. Seja na rua. Seja em casa. Eu paro o que estiver fazendo só pra ver qual vai ser o fim daquele delírio.
É confortável até o momento que acaba...

Fred disse...

E eu?!? Que tenho esse hábito de delirar mesmo sem febre... hehe! Hugzones, Samzete!

Antonio de Castro disse...

Tédio é um troço louco. Eu não sei se era isso exatamente que você estava sentindo no momento, mas qd vc fala sobre andar pela casa e surtar... Eu sempre me sinto assim quando eu to entediado. Acaba que o tédio pra mim é uma doença também.

Aliás, adorei a foto. Eu costumava postar fotos como essa nos meus posts. Fez eu me lembrar de mim mesmo mais novo.

Sam Peregrine disse...

Delírios são os sonhos de olhos abertos, meus queridos. Às vezes é a febre, às vezes é o tédio, às vezes não é nada. Nesse caso, foi um pouco de tudo.

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...