domingo, 22 de setembro de 2013

A História de um Pau

Eu era uma criança. 

Isso já diz muita coisa. Pois naquela época eu era uma doce e pura criança inocente.

Eu não entendia tão bem o meu corpo como eu julgava na época. Mas eu me dei conta que meu prepúcio não contraia para trás. Melhor dizendo, meu pau não mostrava a cabeça. Não tinha me tocado até ai que isso não era normal. Não tinha visto tantos paus na minha vida pra poder me tocar disso.

Mas alguma coisa me fez perceber isso. Talvez tenha sido os livros que eu li, as aulas de biologia, quando eu descobri o mundo do pornô. Não sei ao certo.

Mas eu descobri que normalmente a pele da cabeça do pau vai para trás, e que os paus que não conseguem fazer isso, precisam de uma operação chamada fimose, para que não tenham problemas mais graves no futuro.

Mas ai vinha o problema para uma pequena criança, praticamente inocente. Como eu resolvo isso? 


Não, não era uma opção falar com meu pai. Pra quem entrou nesse blog agora, saiba que eu nunca tinha tido uma conversa sobre sexo com meu pai. Na verdade eu tinha tido poucas conversas com ele ao longo da vida.

O que restava era eu dar o meu próprio jeito na coisa.

Não, eu não tentei fazer uma fimose eu mesmo. Eu até pensei nisso, mas tive medo de não conseguir terminar o serviço.

Então eu comecei a forçar o prepúcio para trás sempre que eu podia. Aos poucos eu comecei a perceber que estava dando resultado. A cabeça do pau começou a aparecer pouco a pouco. E eu tentava higienizar o pau da forma que eu podia.

Mas um dia ele finalmente foi completamente para trás. Foi uma dor desgraçada. A cabeça que nuca tinha respirado ar fresco estava tão sensível que até omcontato com água doía. O prepúcio ainda estava apertado, e eu só podia ver a cabeça do meu pau quando ele estava mole.

Foi nessa época que o milagre aconteceu: meu pai veio falar como comigo. 

Não foi um papo do tipo “de onde vêm os bebês”. Ele não é burro assim, sabia que eu era um garoto esperto. Foi mais algo do tipo “sabe, se você tiver alguma dúvida pode vir falar comigo”. Ok. Eu e ele sabíamos que era tarde demais pra isso. Não existia papinho que desse jeito em anos de desse distanciamento mental. Mas eu vi ai a minha chance. Quando ele perguntou se eu achava que tinha algum problema com meu corpo, eu não pude ignorar.

Ele me levou em um urologista. A experiência mais hardcore que uma criança poderia ter.


Na fila de espera do urologias, os homens conversavam sobre câncer de pênis e de testículos. Um deles conhecia um homem que preferiu encomendar uma morte feia e dolorosa, do que perder o pênis. Uma papo superdescontraído para uma criança ouvir antes de entrar no urologista pela primeira vez.

Entrei com meu pai. 

Aquilo passou sem que eu pudesse me dar conta. Quando vi estava deitado em uma maca atrás de uma cortina branca e fina com uma luz fluorescente sobre mim e um cara vestido de branco e calçando luvas de látex pegando no meu pau. Olhei pro teto como se não fosse comigo. Não que eu sentisse vergonha. Estava tão sem jeito que nem isso eu consegui sentir.

Uma pergunta tão toscamente cochichada que era impossível não escutar do outro lado da cortina. 

Já fez sexo?

Minha cabeça balançando para um lado e para o outro. Ele nem mudou a expressão entediada no rosto. Poxa cara, assim você fere meus sentimentos. Queria saber se ele não mudava aquela cara se me perguntasse isso hoje. Não que a resposta tenha mudado, na verdade.

De volta a mesa, do lado do meu pai. Ele explicou que o meu problema era que eu tinha um “cabresto”. Uma pequena pele que segura o prepúcio à glande (cabeça do pau; tenho que parar de ficar falando difícil). Mas que no meu caso era uma pele fininha e que na minha primeira vez iria se partir, sangrar um pouco, mas eu sobreviveria. 

Porra doutor, pra que fingir perguntar baixinho lá na cortina se vai falar assim tão abertamente que eu sou virgem na frente do meu pai como se eu não me importasse. E ainda me diz que eu vou sangrar na primeira vez como se eu fosse uma menininha. Você devia pensar mais nos sentimentos dos seus pacientes.


Foi ai que meu pai falou que isso tinha acontecido com ele. Ele tinha sangrado na primeira vez. 

Ok, informação demais pra uma criança que nunca falou de sexo com o pai. Agora eu vou passar os próximos anos tentando imaginar como foi a primeira vez do meu pai. É merda demais pra um dia só.

Sai de lá desolado. Eu estava crente que faria uma operação. Nem que fosse pequena. Isso era algo pelo qual eu ansiava. Eu também queria tirar de logo vez aquela pele que tinha me causado tanta preocupação. Não ia ser dessa vez. Quem sabe quando eu tiver idade pra vir aqui sozinho.

Mas acontece que o meu prepúcio acabou se alargando sozinho (tá, teve uma ajudinha). Hoje já consigo retrair ele normalmente mesmo com o pau duro e meu cabresto (palavra que eu passei a odiar desde então) nunca se partiu.

Doutor, eu quero o dinheiro do meu pai de volta!

14 Cochichos atrás da porta:

Dama de Cinzas disse...

Muito bom seu texto, envolvente, a gente consegue se sentir no seu lugar. Gostei daqui.

Obrigada pela visita lá no meu blog.

Beijocas

Homossexual e Pai disse...

seu texto ficou ótimo, sensível, verdadeiro, parabéns...e como vocE eu tb nunca tive nenhum tipo de conversa assim com meu pai, e tive que dar um jeito no meu prepúcio como vc! rsrsrs

Sam Peregrine disse...

Fico muito emocionado que tenham achado isso. Foi um pouco difícil para mim escrever particularmente essa história, mais ainda compartilha-la.

R. M. disse...

Por essas e outras é que me irritam aqueles poeminhas sobre as "maravilhas da infância"... Quase ninguém se atreve a dizer que a infância é uma travessia das mais complicadas, cheia de monstros bem reais e milhões de perguntas que nenhum adulto quer (ou sabe) responder. E, quando finalmente acaba, ainda deixa essas lembranças duras de engolir.

Anônimo disse...

Eu ficaria com vergonha d+ pra falar isso com meu pai,agora, se eu tivesse isso eu teria mais vergonha ainda dps de ler esse texto kkkk mas foi mto bom, Parabéns

Sam Peregrine disse...

R. M. e Anônimo, depois que passa não é tão ruim assim. Mico só sinto na hora, depois eu faço é rir.
Sou muito de: já passou, que se foda! rsrsrs

Mateus Costa disse...

Parabéns Sam pelo texto e pela coragem expor algo tão íntimo.
Eu tenho fimose e sei como incomoda e atrapalha tanto pra limpar o pau como pra bater uma. É complicado :s

railer disse...

que bom que no final deu tudo certo. e quem tem prepúcio tem bem mais sensibilidade e tesão ali na região, já que não fica sempre exposta. aproveite bem isso!

Leonan Mariano disse...

As vezes acho sua adolescência e infancia um pouco parecida comigo eu também nunca tive uma conversa sobre sexo com meu pai.

lucas santos disse...

Muito legal sua maneira de falar , engraçado até, mas que bom que deu tudo certo

Anônimo disse...

Eu nem lembro como vim parar aqui, acho que foi porque estava pesquisando algo envolvendo.minha bissexualidade. Ah, sla. Só tava pesquisando.
E muito obrigado cara, serio mesmo. Tenho 14 anos e passo pela exata situação que você relatou. E no meu caso, é bem complicado (pois quando eu era pequeno visitei uma médica e ela afirmou que eu nao tinha fimose) isso agora me fez pensar na possibilidade de a sua situação ser a mesma que a minha. Não me agrada pensar na possibilidade de cirurgia, mas se for a única maneira...
De qualquer maneira, obrigado. Aliás, gostei da sua escrita - ela é clara e direta.
Irei acompanhar o blog, continue ajudando os jovens deste mundo e.e

Dominus disse...

Cara, que violento esse urologista.
Eu quase fiz cirugia de fimose um tempo atrás, mas não foi preciso, contei com uma ajuda valorosa de uma pessoa.

Marcelo Dantas disse...

Imagino o quanto foi difícil compartilhar essa história. confesso, que surgiu o sintomas de vergonha aleia em alguns trechos. Ainda bem que ao menos isso esta resolvido. Gostei do blog, parabéns!

Marcelo Dantas disse...

Imagino o quanto foi difícil compartilhar essa história. confesso, que surgiu o sintomas de vergonha aleia em alguns trechos. Ainda bem que ao menos isso esta resolvido. Gostei do blog, parabéns!

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